Livro L'Homme dans L'Oreille
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Capítulo 1: Uma Descoberta Fortuita

Naquela noite vieram me procurar para fazer um parto. Eu tinha já uma certa prática em partos: eu tinha inclusive tido a ocasião de intervir positivamente em uma circusntância das mais delicadas, pois a criança apresentava uma dupla-circular de cordão. Mas eu não era um especialista na matéria! E então me aparece isto! Não demorou muito tempo para eu compreender que a má sorte reservava, pela segunda vez, ao jovem médico que eu era, um parto particularmente difícil. Eu fui chamado em uma fazenda isolada para ajudar uma camponesa que já tinha 6 filhos. Foi o tempo de pegar meu kit de urgência e partir. Na minha chegada, me levaram para um quarto onde havia cerca de oito pessoas. A parturiente estava deitada sobre uma cama no fundo do quarto e cada um a olhava sem fazer nada. Eu disse “sem fazer nada” mas na verdade, eu me enganei: o marido, para ajudar a esposa em dificuldade, bebia conhaque à grandes goles repetidamente.

Uma hemorragia, e meu diagnóstico, após o exame, e sem ambiguidade: apresentação pélvica com placenta prévia. Para aqueles que não conhecem a obstetrícia, eu diria que esta apresentação do feto é uma das mais ruins que podemos encontrar em um parto. Para o meu segundo “ensaio”, a má sorte me perseguia. Que fazer à quinze quilômetros do primeiro posto telefônico? Diante da paciente, eu refleti sobre a conduta a tomar, repassando mentalmente os aprendizados de meus professores. Foi então que me veio a frase de um de meus professores: “A arte do parteiro é saber esperar”.

Mas também que outra coisa poderia eu fazer? Eu esperei.

Se foi a influência benéfica do marido alcoolizado ou se foi a Providência, não sei, mas a mulher enfim, expulsa de uma vez a criança e a placenta. Tudo se passou normalmente. Eis aqui um dos primeiros episódios da minha vida de médico. Ele permaneceu na minha memória e permanecerá por muito tempo ainda.

A vida de médico se baseia nas circunstâncias...Mas antes de tudo, permita-me me apresentar. Antigo externo de hospitais, eu sou um médico em Lyon, simplesmente um médico. Eu digo “simplesmente” porque eu não possuo nenhum título extraordinário. Minha primeira preocupação sempre foi de aliviar e de curar as doenças.

Após meus estudos secundários, minha escolha não era pela medicina. Atraído pelas ciências fundamentais, e mais particularmente pela física, eu entrei na “École Centrale de Lyon” para me tornar um engenheiro. Meus estudos seguiram sem problemas, e eu estava terminando o terceiro ano quando fiquei doente, e eu me vi contrariamente tendo que parar minhas atividades por algumas semanas. Mas será que esta doença era resultado do acaso? Ela me permitiu certamente uma longa reflexão, pois deixando meus estudos técnicos, eu decidi ser um médico.

A juventude é um estado maravilhoso que não conhece inibições. Os longos estudos não me davam medo. Eu me lancei à medicina com convicção. Este futuro na vida médica me era familiar. Meu pai, médico e professor agregado de física médica, ensinava na faculdade de medicina de Lyon. Através de seu exemplo, eu conheci a vida e as exigências de sua arte médica, ele especialmente gostava de compartilhar as alegrias e as penas de ser pesquisador e clínico.

Eu escolhi então, deliberadamente, a medicina, eu não imaginava em nenhum momento que ela me conduziria para pesquisas e descobertas originais. Somente mais tarde, eu pude perceber quanto a bagagem científica adquirida durante meus primeiros estudos me foram preciosas, tanto pela noção de eletricidade como pela da física.

Conforme os anos passam, me parece que estes conhecimentos foram como pedras, que foram juntadas cada uma em seu tempo, ao edifício das minhas descobertas. Mas não nos antecipemos, e voltemos aos meus estudos de medicina. Continuados em Lyon, eles foram idênticos àqueles de todos os meus colegas. Eu aprendi anatomia, fisiologia, semiologia, as técnicas médicas, claro. Foi entre duas guerras e os grandes progressos da medicina estavam ainda por vir. Tinha-se muito a descobrir; muitas doenças facilmente tratáveis atualmente, constituíam enigmas e verdadeiras pragas. A tuberculose resistia sempre às diversas propostas terapêuticas e as doenças bacterianas não tinham, por assim dizer, nenhum medicamento específico. Felizmente a ciência teve que evoluir.

Após uma tese que tratava da tuberculose, eu decidi, antes de me instalar, fazer alguns estágios com colegas mais antigos, estas experiências foram instrutivas e me deram além disso a oportunidade de entrar em contato com medicinas não ensinadas na faculdade.

Foi assim que eu fui aceito por um médico lionês, o Dr. Charles BERNAY, homeopata de grande valor, para um estágio. Eu entrei em contato pela primeira vez com a medicina hahnemanniana. Ela me pareceu uma medicina muito humana e original. Humana, pois o remédio era escolhido de acordo com o doente e não de acordo com a doença, e os sintomas, fossem os mais ínfimos ou inesperados, tinham sua importância. Original até mesmo pelo princípio da medicação: o medicamento prescrito em doses infinitesimais era aquele que, em fortes doses, provocaria, em um ser são, os sintomas apresentados pela doença. Este princípio, que por inúmeras vezes deu sua prova, foi descoberto após uma paciente e minuciosa experimentação. Seu mecanismo ainda inexplicado é de uma extrema delicadeza. A bioquímica enzimática terá a ocasião de nos ser revelada um dia?

De retorno ao meu consultório, eu adotei o método, alguns livros consagrados me ajudaram. Para minha grande surpresa, eu vi uma úlcera varicosa de sete anos ser curada em alguns dias graças à um só medicamento: Grafite. Esta cura espetacular sacudiu o ceticismo que eu ainda não tinha conseguido me desvencilhar, face à uma medicina muito frequentemente criticada, devo dizer.

Foi nesta mesma época que minha curiosidade se direcionou para a acupuntura. Caiu em minhas mãos um panfleto redigido pelo grande acupunturista francês, Georges SOULIE DE MORANT. Seu livro foi publicado nos anos trinta pelas Editions du Mercure de France. Eu soube somente mais tarde como as circunstâncias de uma vida completamente original tinham levado pouco a pouco este homem ao aprendizado da medicina chinesa. Durante sua juventude, ele havia recebido de um chinês o ensinamento da língua e os usos dos protocolos orientais. “Quando eu cheguei na China, escreve ele, eu falava fluentemente o chinês e as etiquetas complicadas me eram familiares”. Seu interesse pela medicina oriental não se revelou senão após uma breve carreira de diplomata, feita na China, iniciada na idade de vinte e três anos, em 1901. A circunstância era grave. Uma epidemia severa acontecia na localidade onde ele conduzia suas funções. Os estragos eram enormes. O hospital francês, apesar dos medicamentos que dispunham, continuavam impotentes diante da praga. Os médicos chineses utilizavam suas agulhas e curavam. O jovem diplomata, com espírito aberto, observa os resultados. Com rapidez, ele pergunta às autoridades francesas a possibilidade de adotar uma medicina tão eficaz. O hospital militar transmite a pergunta para a Metrópole, que a recusa.

Georges SOULIE DE MORANT decide então abandonar a carreira diplomática, e fica na China, inicia a aprendizagem da acupuntura com os médicos anciãos. “Eu pude, diz ele, vir a receber um reconhecimento oficial como médico chinês”. Retornando à França, o antigo diplomata redige preciosos tratados de acupuntura que deram para o Ocidente um melhor conhecimento desta arte que foi a origem de imenso desenvolvimento que observamos nos últimos anos desta técnica. SOULIE DE MORANT praticou esta medicina com uma técnica perfeita e com um grande senso do doente. Ele foi, em seguida, contestado pelos médicos franceses, por não o reconhecer como detentor do direito de exercer sua medicina pois ele não tinha um doutorado. Este homem de alta estatura, distinto, com alma aventurosa (ele era amigo de Henri de MONTFREID), manifestou, aos dizeres daqueles que os conheceram, uma grande abertura de espírito. Ele havia adquirido com os chineses a sabedoria e o refinamento da tradição deles. Ele soube dispensar seus vastos conhecimentos para alunos franceses, criando então uma escola de acupuntura, referência quando falamos desta técnica médica. Ele morreu em 1955.

A Acupuntura tem a idade da humanidade. A idéia de picar ou de escarificar a pele com a ajuda de pontas de pedra, com um objetivo terapêutico local, remonta à pré-história. Esta medicina milenar, consiste em fazer penetrar uma ponta de sílex afiada em uma parte qualquer do corpo, seja num homem, seja nos animais, a fim de provocar uma ação sedativa. Os antigos acreditavam de fato que os seres animados escondiam em seus organismos demônios malfeitores, que convinha extirpá-los com a ajuda de uma espinha de madeira dura ou mesmo com a ajuda de uma ponta de fogo. As lascas de sílex foram substituídas pouco a pouco por pedras afiadas, agulhas feitas de ossos , ou agulhas de bambu. O uso das agulhas metálicas remontam ao VI século A.C.

Foi entre 475 e 221 antes da nossa era que foram elaborados os mais velhos textos chineses, eles correspondem aproximadamente aos textos gregos da tradição hipocrática. A acupuntura clássica se desenvolveu durante dez séculos. Eles conheceram o apogeu sob os T’ANG (618-907). BRIGMAN R.F. nos expos o princípio fundamental. “O sistema clássico desenvolvido a partir do terceiro ou quarto século após a era cristã descreve os meridianos como uma rede de linhas percorrendo o tronco, a cabeça e os quatro membros e que servem de via de impulsão específica de cada órgão. Os meridianos não tem uma realidade anatômica e a dissecação mais fina não os revelam, mesmo eles sendo superficiais e intradérmicos, pois eles apresentam pontos particulares acessíveis à ação da moxa e das agulhas de acupuntura. No sistema clássico, cada víscera possue seu próprio meridiano e concebemos que uma ação terapêutica possa ser em príncipio exercida sobre um órgão profundo excitando ou deprimindo o meridiano correspondente pois a impulsão característica do órgão em questão lá circula.

No século XVII, os chineses reorganizaram a acupuntura, pois ela se tornou extremamente complicada. Depois disto ela não contava mais do que com 145 pontos. Mas a introdução de novas descobertas médicas vindas do Ocidente, obscureceram ainda mais a antiga medicina, e assistimos seu declínio no século XVIII, no século XIX e até os dias atuais, onde sua prática foi proibida, em 1929, pelo governo da China nacionalista. No domínio médico, a República Popular herdou em 1949 um fardo pesado. E decide então reorganizar a medicina tradicional. Esta reorganização beneficia, como veremos, a contribuição francesa.

Para introduzir a acupuntura nas suas linhas gerais, peguemos o resumo vigoroso que nos dá o Dr. Jean BORSARELLO:

  1. "Uma energia parece percorrer os órgãos, passando de um para outro com uma regularidade de um relógio.

  2. Esta energia profunda tem sua representação sobre o revestimento cutâneo segundo as linhas longitudinais nomeadas “meridianos”.

  3. Um tipo de polaridade Yin (-) e Yang (+) é necessária para assegurar a saúde, as doenças provêm de um excesso de + ou - .

  4. Punturando certos pontos cutâneos, cituados sobre os meridianos, podemos melhorar certas afecções de ordem funcional: esta melhora será remarcada pelo pulso.”

Em 1939, existia a guerra. Mobilizado e nomeado em um forte nos Alpes eu dava assistência à saúde para um grupo de artilheiros. Eu havia colocado em minha bagagem um kit de sessenta medicamentos homeopáticos. Eu constatei em mais de uma vez os efeitos benéficos da terapêutica hahnemanniana sobre os homens que me foram confiados. E, se eu ainda fosse cético depois deste período da minha vida, eu creio que eu jamais poderia continuar sendo depois do evento convincente que aconteceu comigo mesmo.

Eu tinha desde meus dois anos um cisto gorduroso atrás da orelha. Este cisto tinha o tamanho de uma ervilha. Tendo o gosto da experiência e conhecendo a homeopatia ainda imperfeitamente, eu decidi tomar um grânulo de cada um dos medicamentos homeopáticos que eu tinha no meu kit. Eu esperava que, com sorte, um dentre eles fosse o bom... o que aconteceu, pois três semanas mais tarde, o cisto havia totalmente desaparecido, e isto de maneira definitiva. E ao fim das hostilidades da guerra, particularmente breve no fronte dos Alpes, eu voltei à Lyon, onde eu me instalei em um consultório privado. Definitivamente adepto à medicina hahnemanniana, eu a pratiquei e pesquisei profundamente com alguns colegas.

Foi então que eu conheci um grande médico, o maior homeopata de nosso século, sem dúvida, e um dos homens que mais me marcou na minha carreira: o Doutor Pierre SCHMIDT. Exercendo sua arte com um talento consumado, ele aceita vir regularmente de Genebra para Lyon para ensinar seus profundos conhecimentos. Eu fiquei embevecido pela minúcia de seu interrogatório aos pacientes. Cada sintoma devia ser considerado com interesse e nenhum detalhe era negligenciado. Se interessando sempre às possibilidades de melhorar o tipo do paciente, o Dr. SCHMIDT praticava àquela época os exames biológicos de primeira, utilizando também, para diagnósticos e terapêutica, as massagens, as manipulações vertebrais, a iridologia, a cronobiologia e a acupuntura.

Esta última disciplina continuava a me atrair. E o grupo do Doutor MENETRIER, que eu frequentava em 1946, me incitava à me aprofundar nesta técnica. Que poderia ser estes pontos chineses? Eu me interessava fortemente neles, e em colaboração de meu irmão, médico e físico, eu tentei construir detectores de pontos (grifo da tradutora). Graças à meu mestre e amigo, o Dr. Pierre SCHMIDT, eu tive conhecimento, no mesmo ano, do Doutor Jacques NIBOYET. Sua autoridade em acupuntura fez dele um dos praticantes mais brilhantes de nossa geração.

Uma outra disciplina me atraia, a medicina manual, na qual eu me iniciei desde o fim da guerra ao lado de meu amigo René AMATHIEU. Nós éramos, entre os médicos lioneses, os primeiros a praticar as reposições vertebrais. A medicina manual consite em reduzir as contraturas ao nível dos músculos ou à recolocar em boa posição os deslocados. As manipulações mais familiares do grande público são as manipulações vertebrais dos torcicolos. Mas em 1946, a medicina manual, como a homeopatia e a acupuntura eram ciências poucas conhecidas. Prudentes em nossas manobras, nós as utilizávamos acima de tudo para o tratamento da ciática.

Esta afecção, como cada um diz, é um processo patológico que se caracteriza por uma dor que parte das nádegas e vai até o pé. Esta dor é causada por uma compressão do nervo ciático, que sai da medula por um orifício chamado forame de conjugação. Este tem como ponto de referência entre a quinta vértebra lombar. Se acontece um apoio anormal desta região, em seguida haverá dor, a dor ciática. Este apoio (compressão) origina normalmente de um deslocamento do disco intervertebral e da posição descentralizada de um núcleo chamado núcleo pulposo. A manipulação que nós praticamos com AMATHIEU tinha por objetivo centralizar este núcleo. Nós tínhamos belos resultados, e meu amigo se maravilhava e repetia: “A ciática, é um problema da quinta lombar”.

Por hora, eu aprofundava meus conhecimentos da acupuntura, da homeopatia e da medicina manual com colegas vindos de Lyon, Genebra, Marselha e Paris. Nós havíamos formado um grupo onde nós tínhamos em comum as noções adquiridas pelo estudo e prática destas disciplinas ditas “paralelas”. Nós todos tínhamos fé naquilo que fazíamos. Confrontando nossas observações nas reuniões que aconteciam na minha casa em Lyon, nós tentávamos avançar nossos conhecimentos. Persuadidos pelo grande valor dos médicos aos quais nós nos iniciamos, nós buscávamos, pelo nosso trabalho, compreender a evidência científica. Longe de nos decepcionar, estas novas terapêuticas recebidas ao longo dos anos, nos trouxe alegrias profundas por causa dos resultados causados, resultados frequentemente espetaculares.

É , de longe, graças ao espírito de equipe que reinava entre nós. que pudemos, cada um com sua parte, compreender a importância destas técnicas médicas e as melhorar. Estas técnicas tinham, e tem, uma grande importância na prática. Elas permitem obter resultados surpreendentes. Eu as utilizo desde o início da minha carreira até hoje. Mas o desejo de aprender mais, o gosto acentuado pela observação, me conduziram para uma combinação de circunstâncias inesperadas para minha primeira descoberta.

Graças à exigência do interrogatório homeopático, eu adquiri o hábito de examinar com muito cuidado meus pacientes, até obter detalhes aparentemente sem interesse. Foi assim que em 1951, eu observei em alguns sujeitos, a presença de uma cicatriz sobre a parte superior da orelha. Coisa curiosa, esta cicatriz era localizada sempre no mesmo lugar. Os pacientes que as tinham me explicavam que se tratava de uma cauterização praticada, com sucesso, por um certa Madame BARRIN, para tratar de ciática. Este pessoa era de Marselha. Seu pai havia lhe confiado o segredo da cauterização, ele havia recebido este segredo de um mandarim chinês, em troca de seu amável acolhimento. A cura era obtida queimando a parte superior do pavilhão com a ajuda de uma ponta de fogo.

Madame BARRIN utilizava este procedimento em Lyon, de maneira ilegal, mas com resultados excelentes. Ela teve a oportunidade de tratar universitários reputados, que partiam de sua casa consideravelmente curados. Uma das curas mais espetaculares foi a que ela obteve na pessoa de Ninon VALLIN. A célebre cantora pediu para que a madame Barrin a atendesse em sua propriedade, não muito longe de Lyon: a cantora estava acamada há algumas semanas. Madame BARRIN aceita ir tratá-la com a condição de que a consulta fosse feita diante de notoriedades médicas que já haviam examinado o seu caso. O pedido era ousado, mas foi atendido, e, foi diante destas testemunhas que a curandeira atua sobre a cantora...Em alguns instantes, esta última pode se levantar. Evidentemente este sucesso teve como surpreender e espantar estes médicos – tão cartesianos – que assistiam a demonstração. Foi por isto, sem dúvida, que a empírica curandeira pode continuar a exercer sua arte sem se inquietar.

Cauterizar a orelha para curar uma ciática parecia bastante estranho. Mas, consciente do resultado e convencido que era necessário respeitar mesmo sendo inexplicável, eu aceitei este fato sem o criticar. E ainda eu decidi aplicar a técnica sobre o próximo doente que viesse me consultar com esta mesma neuralgia. A frequência desta dor me trouxe imediatamente um homem proeminente. Eu cauterizei sua orelha. Para minha grande surpresa o paciente foi imediatamente aliviado da dor. O resultado era espetacular. Continuando, perplexo, eu nao tirei nenhuma conclusão deste fenômeno, mas decidi aplicar novamente o tratamento. E foi feito com sucesso.

Antes de ir mais longe, é necessário notar que as conversas médicas que eu tive com meu pai me restavam na memória. Um médico francês otorrinolaringologista, o Dr. BONNIER, tinha encontrado no interior de um nariz, nos cornetos, correspondências com diferentes partes do corpo. Ele tinha chegado ao ponto de criar um método chamado centroterapia, ou seja, “terapêutica pelos centros nervosos”, que se refletiam ao nível das mucosas do nariz. Isto muito me interessou. Diante destas cauterizações auriculares, eu me perguntava: Será que não existe ao nível das orelhas uma correspondência como existe ao nível do nariz? Agindo sobre um ponto do pavilhão auricular, não agiríamos de longe em uma região determinada do corpo?

Durante muito tempo eu pesquisei, mas em vão, pontos da orelha que correspondesse, como aquele do ciático, à uma das regiões do corpo. Porque temos este apêndice, no mínimo estranho, na cabeça; não teria ele um eco em outras partes do soma? A idéia era plausível. E, durante dois anos, três anos, eu picava o pavilhão por aquele ou aquele problema periférico. Sem grandes resultados, eu tenho que admitir. O que prova, uma vez mais, que as tentativas feitas por acaso e sem idéia de diretrizes prévias conduzem frequentemente, no domínio médico, aos impasses.

E então, um dia, diante de uma orelha cauterizada, eu tive um click: eu ouvi a frase que meu amigo AMATHIEU amava repetir. “A ciática, é o problema da quinta lombar”. Mas lógico! A ciática, é o problema da quinta lombar! A famosa cauterização não agiria ao nível desta vértebra, e o lugar cauterizado não seria então o lugar de sua representação? A hipótese foi feita. Antes de explicar como ela foi demonstrada, eu gostaria de precisar o que entedemos por somatotopia. Como eu já disse acima, ela é a representação do corpo inteiro ao nível de um órgão, e é vista bastante frequentemente no reino animal, notavelmente no homem, ao nível da “área 4 de Brodman”, uma pequena área do cérebro. Os órgãos, cuja função é muito importante ocupam, nesta somatotopia, uma superfície mais desenvolvida que as outras, com função menos importante. Os braços ocupam uma superfície relativamente restrita enquanto que o polegar cobre uma superfície remarcável para sua dimensão. Isto torna-se compreensível quando sabemos o quanto a função motora do polegar é mais precisa que aquela do braço. Seus movimentos são incomparavelmente mais numerosos e frequentes e mais adaptados à um objetivo específico. Não era então um pensamento ilógico procurar ao nível da orelha uma representaçãoo do corpo. Conhecendo o ponto da quinta vértebra lombar, faltava partir daí para ensaiar a verificação deste preciosa hipótese.

Seguindo minhas observações, eu testei muitas conjecturas cuja uma só deveria funcionar: será que o alto da orelha não corresponderia à parte inferior do corpo e a parte baixa da orelha não corresponderia à cabeça?

Elementar, meu caro Watson... Ninguém havia pensado nisto até o presente, e por outro lado, se observarmos não há uma semelhança impressionante da orelha com um feto no seio de sua mãe? Esta similitude me saltava aos olhos. Faltava somente um pouco de trabalho para chegar à demonstrar esta somatotopia.

Um pouco de trabalho... que durou quinze anos!

A senhora BARRIN praticava a cauterização ao nível da anti-hélix. Ao ponto onde chegou minha pesquisa, eu imaginei que toda esta parte da orelha tinha a projeção da coluna vertebral, mas uma projeção inversa, o cóccix se refletia sobre o alto da orelha, e as vértebras cervicais sobre a parte baixa da anti-hélix, perto do anti-tragus.

Há muito tempo eu observei que existia, ao nível do pavilhão, uma dor localizada em um lugar preciso assim que uma parte do corpo adoecia.

Minha função era então pesquisar simultaneamente, ao nível auricular, os pontos dolorosos e, ao nível do corpo, os problemas susceptíveis que os fazia aparecer. Eu fui ajudado nisto por numerosos doentes que se queixavam de suas costas. Bastava então isolar os pontos sensíveis sobre o pavilhão e de encontrar a correspondência anatômica. Após numeorosas observações, eu cheguei num esboço da imagem da coluna vertebral na orelha de uma maneira bem precisa. Este resultado, consistia em algumas linhas, fruto de um longo trabalho de paciência, de tentativas e erros, de hesitações e de verificações. A perseverança me recompensou, veremos. Isto não era nada além do que um começo: munido desta “chave vertebral”, eu precisava encontrar as correspondências do corpo inteiro.

Mas de qual lado me dirigir? Para minha alegria, eu tinha, com a coluna dorsal uma peça de meu quebra-cabeça; ela me conduziu logicamente para o ombro, pois esta articulação tem raiz na altura das primeiras costelas. Logicamente, os pacientes que sofriam com esta articulação merecem, da minha parte toda uma simpatia e reconhecimento! Eles me ajudaram, através de suas dores, à conduzir com sucesso as pesquisas cada vez mais surpreendentes. Pesquisas que consistiam sempre, essencialmente, em encontrar o ponto doloroso correspondente, ao nível da orelha, à esta ou aquela região do corpo. Foi assim que progressivamente, a descoberta dos pontos do ombro, me dirigiu ào membro superior, à vísceras, enfim. Eu descobri pouco a pouco que as diversas projeções existem em função não somente da anatomia, mas igualmente da fisiologia. O polegar, por exemplo, é notavelmente hipertrofiado ao nível da sua imagem auricular: lembremos o quanto sua função é importante.

Pouco a pouco, com assiduidade e perseverança, eu consegui organizar as diferentes peças do quebra-cabeça. Seria errado pensar, ao contrário das aparências, que foi sem dificuldade. Para afirmar a existência de uma localização, eu tive que confirmar em dezenas e dezenas de observações. Nada é fácil no campo das pesquisas. Sempre encontramos, no momento do desfecho, uma pessoa ou um evento que vem e coloca tudo a perder.

Também é preciso saber que os pacientes apresentavam, geralmente, muitos outros problemas. Por causa disto, eu também encontrava muitos pontos dolorosos sobre a orelha. Como descobrir suas relações, suas interações? A dificuldade era então maior, principalmente se imaginarmos que cada sujeito tem reações que lhes são próprias. Eu precisava então ter um maior rigor na minha investigação. Com este objetivo, eu criei um modo de detecção muito simples. Eu empreguei a extremidade de uma caneta Bic que, ligada diretamente à uma mola, me permitia uma pressão qualitativamente adequada sobre a orelha, resultando em cada caso, em uma dor mais ou menos aguda, mais ou menos picante, etc.

Graças à esta somatotopia já um pouco elaborada, eu pude, tratando a orelha, obter resultados terapêuticos muito apreciáveis nas dores periféricas. O processo, sempre o mesmo, não oferecia nenhuma complicação. Assim que um paciente vinha me procurar por causa de uma dor no joelho, por exemplo, eu ia procurar na orelha, na região adequada com a pressão da minha “Bic”. Eu picava o ponto e assim reparava com um eficácia as vezes tão grande que eu ficava estupefato.

Estes resultados parecem assentar os fundamentos ainda hipotéticos da minha descoberta. Tão bem que eu decidi me abrir aos meus colegas de profissão. Eu fazia parte, na época, de um grupo de médicos interessados pela homeopatia e acupuntura. Nós nos reuníamos mensalmente no meu apartamento, na Praça Bellecour. Durante dois dias, sábado e domingo, nós podíamos, num ambiente familiar, pesquisar teorias que depois podíamos utilizar nos nossos pacientes.

E foi numa destas reuniões que eu senti o momento de dizer “os resultados das minhas pesquisas”. A manhã havia terminado, e na sala de espera, transformada para a ocasião em sala de consultação graças à uma maca, nós atendíamos o ultimo paciente. Era um grande homem jovem que sofria de dor de coluna; eu já havia tido a oportunidade de o tratar três dias antes aplicando nele a minha nova técnica, e ele retornou com esperança de uma cura completa. Eu expus aos meus colegas, contando à eles os princípios do método. Um a um examinou a coluna do paciente e localizaram as partes doloridas; eu propus então meu tratamento. Eu encontrei na orelha dois pontos sensíveis, sobre os quais eu coloquei duas agulhas. Enquanto o paciente esperava o efeito, eu continuei minha explicação, baseada nos resultados dos dias precedentes. Somente alguns minutos bastaram. “Ainda doi?”. O jovem paciente se contorcia, tentando encontrar sua dor. “Não, eu não sinto mais nada, não doi mais. Desapareceu por completo, não tenho mais dor de coluna”.

Novamente um à um, meus colegas tiveram que verificar eles mesmos o desaparecimento da dor. Eles me parabenizaram de maneira calorosa, mas me tentando convencer de que a homeopatia e a acupuntura tinham resultados parecidos. É razoável ir procurar longe aquilo que parece estar perto de mim... Eu não sabia por onde começar, pensando talvez em continuar meus trabalhos. Eu conheci então um colega excepcional cuja intervenção foi decisiva na continuidade das minhas pesquisas.

Jacques NIBOYET era e continua, até agora, um dos melhores acupunturistas da França. Suas numerosas pesquisas fez dele autoridade em acupuntura. Aluno de SOULIE DE MORANT, ele conhecia a acupuntura perfeitamente, ou seja, um médico chinês devia conhecer realmente sua própria arte. Tendo ouvido dizer sobre a atividade do nosso grupo, ele decidiu o frequentar regularmente, e eu o reencontrei no momento preciso onde eu hesitava em continuar minhas pesquisas. Um dia, conversando, eu me abri à ele e contei as curas que eu obtive picando a orelha nos pontos dolorosos. Ele se surpreendeu.

Isto é uma novidade, disse-me ele, desconhecida pelos próprios chineses. Ele me propôs então fazer, se isto fosse agradável para mim, uma apresentação nas “Premières Journées d’Acuponcture” (“Primeiras Jornadas de Acupuntura” – NT), que deveria acontecer em Marselha em fevereiro de 1956

Se isto me fosse agradável? Mas lógico! Eu preparei então um texto e me encontrei no dia marcado diante de cerca de trinta colegas. Nesta época, pouco habituado ao público, eu não ousei falar sem seguir o texto. Eu li minhas linhas escritas sem levantar a cabeça, percebendo através das minhas palavras o silêncio na sala. Eu terminei enfim. Grande foi minha estupefação quando o auditório começou a me fazer numerosas perguntas.

Curiosamente, entre o auditório havia um homem particularmente interessado em minha exposição. Era um médico alemão. O Dr. BACHMANN, de uma estatura pouco comum, ele era um antigo oficial superior. Remarcavelmente inteligente, ele falava muito bem o francês. Eu percebi que ele dividia sua vida entra a arquitetura, o desenho, a música e a acupuntura. Mas aquilo que ele tinha paixão era a orelha! A curiosa morfologia deste órgão o intrigava à tal ponto, que ele chegou à escolher seus colaboradores, quer seja no exército ou na vida civil, segundo a forma de seu pavilhão auricular, que para ele revelava o caráter do indivíduo, e sua saúde psicológica. Nosso encontro foi assim surpreendente para um e para o outro. Após me ouvir com o máximo interesse, BACHMANN veio conversar comigo, transbordando de entusiasmo. Eu aceitei, à pedido dele, escrever para sua revista alemã de acupuntura, artigos que ele se comprometeu em traduzir. Eu não tinha dúvida que ali começava a difusão dos meus trabalhos para o mundo.

De fato, o Dr BACHMANN, uma vez de posse dos meus artigos, os inseriu na sua revista que, naquela época, tinham um grande renome. Sua tiragem era para o mundo todo, entrando muito particularmente no Extremo Oriente.

O acaso quis assim que meus trabalhos alcançassem a China pelo Japão.

A China estava então em plena revolução cultural. Sabiamos que o presidente Mao Tse Tung tinha ordenado a revisão e melhora das técnicas médicas milenares que, sob seu comando, professores e médicos haviam recebido a tarefa de as facilitar e aperfeiçoar. Os observadores chineses que se encontravam no Japão não deixaram de relatar minhas descobertas.

Os artigos que eu havia publicado na revista alemã de acupuntura não podiam estar chegando em momento mais oportuno! Meus artigos foram então estudados com grande esmero em Pequim, Shangai e Cantão. Eles passaram pela aprovação de antigos chineses, pois eles adotaram amplamente minhas técnicas, utilizando até hoje em dia. Um grande número de chineses, médicos ou leigos, possuem em casa uma orelha de plástico sobre as quais foram inscritos os principais pontos e os ideogramas correspondentes à diversas partes do corpo. Estas orelhas, compradas nas farmácias, permitiam tratar as dores leves ou os problemas mais profundos. Eles me ofereceram um calendário chinês cuja imagem ilustrava este novo costume amplamente utilizado pelos famosos “médicos de pés descalços”.

Continuando sua jornada, a terapia auricular fez então um tour ao redor do mundo. Em 1970, quando os americanos foram capazes de desfrutar a novidade de paisagens chinesas, graças ao presidente Nixon, eles ficaram surpresos ao descobrir esta nova acupuntura. Os franceses, por sua vez foi para o Extremo Oriente; eles voltaram com as novas técnicas chinesas "made in France". Curiosamente, se por um lado os “Filhos do Céu” (forma de chamar os chineses – NT) de bom grado me cumprimentam como o inventor deste novo método, alguns franceses preferem ignorar o fato para argumentar que os chineses, em sua revolução cultural abriu novas perspectivas para o uso de agulhas.

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