Nogier R. (Copyright : R. Nogier )

Tradução autorizada de: La pudeur. In: Les Annales du Glem. Lyon. 2007-2008.

Reprodução proibida sem autorização do detentor dos direitos. Copyright 2017 © Raphaël NOGIER

Tradução feita por: Dra. Larissa A. Bachir Polloni. (Escola Raphaël Nogier de Auriculoterapia Clínica – contato@escolanogier.com.br)

Pelo dicionário Robert, o pudor trata-se de um desconforto que passa uma pessoa delicada diante daquilo que sua dignidade lhe parece impedir de fazer. Já no Larousse, é descrito como “discrição, um impedimento de falar ou fazer algo que pode ferir a decência, a honestidade, a delicadeza”.

O que é o “pudor” e porque falar sobre isto no campo da medicina?

Certas doenças do sistema nervoso, e principalmente aquelas que atingem o córtex pré-frontal, se manifestam por sinais singulares. O fato de retirar o córtex pré-frontal em um homem “normal”, devido à tumor encefálico, por exemplo, faz aparecer nesse homem: uma atitude aquém da sociedade, uma falta de inibição e uma falta de pudor.

O córtex pré-frontal tem uma função bem particular. Ele não intervém nem na motricidade nem na sensibilidade, nem na sensorialidade. O pré-frontal tem como função, acima de tudo, de harmonizar as relações inter-individuais. Sempre é perigoso de esquematizar, de reduzir conceitos. Contudo, para bem compreender o pré-frontal, parece indispensável entender o que é um sentimento.

Cada homem tem sentimentos: sede, fome, frio, calor, medo, ciúmes, atração sexual, repulsão, etc. Estes impulsos agradáveis ou desagradáveis, perfeitamente subjetivos geram um comportamento específico destinado à preservar a integridade da pessoa, de seu território e de sua descendência. A fome gera a busca de alimento, a dor gera as reações de cuidado, o ciúme gera a defesa ativa do território, o sentimento de atração sexual gera a busca da procriação, o medo gera a fuga etc. Os animais são gerenciados pelos sentimentos. Porém, em uma sociedade organizada e principalmente humana, os sentimentos de uns podem criar comportamentos que vão trazer problemas a coesão e o bom funcionamento do grupo. Desta forma é então necessário e imperativo para os membros de um grupo de dominar e de dissimular certos sentimentos a fim de não criar problemas em um grupo. Isto é o pudor.

Eu defino o pudor como: “uma atitude natural, consciente ou inconsciente, de esconder ou calar sentimentos com o objetivo final de preservar a ordem social.”

Um exemplo sempre é mais explicito que uma demonstração abstrata. Imaginemos um grupo de excursão. Este grupo está fazendo o tour no Mont Blanc. Admitemos que dentro deste grupo, um elemento X sofre de dores nos pés. Duas soluções podem acontecer: ou o individuo X vai sofrer em silêncio e vai tratar de cuidar do machucado discretamente, ou o individuo X vai expressar bem alto seus sentimentos de dor: “Estou com dor, eu não aguento mais, não vou dar conta”. Esta segunda atitude, vai, com certeza, rapidamente perturbar o bom andamento do grupo. No primeiro caso, o pudor prevalece sobre o sentimento, no segundo o sentimento prevalece sobre o pudor.

O pudor, segundo a educação, se expressa diferentemente. Se o pudor é fisiológico, ele se expressa diferentemente de acordo com as culturas. Quanto mais um homem é educado, mais ele terá tendência à esconder seus sentimentos pelo pudor. Àqueles que conhecem os orientais extremos puderam sem dúvida observar que eles dissimulam os sentimentos. Comportamento que não tem nada à ver com as sociedades de origem mediterrêneas.

Então porque falar do pudor em um artigo médico?

Simplesmente porque existe, cada vez mais, patologias ligadas ao mal funcionamento do pré-frontal. Escrevendo este texto, eu penso nas expressões atuais que passam pelos nossos olhos: “é necessário soltar-se, é importante expressar seus sentimentos”, o “coming out” etc. Estamos assistindo o desenvolvimento de uma sociedade que mostra tudo, que expõe tudo na TV, nas ruas, nos jornais. Os leitores dessas exposições escandalosas são também tão patológicos quanto aqueles ou aquelas que não hesitam em entregar em praça pública seus sentimentos, sinônimo de intimidade.

Aplicações da Auriculoterapia:

O córtex pré-frontal está representado sobre a parte inferior e anterior do lóbulo;

Ele deve ser explorado sistematicamente em busca de pontos de menor resistência elétrica nas patologias seguintes:

  • - Trauma frontal: como acidentes de carro onde o individuo bate a testa no para-brisa.
  • - Síndrome pós-traumática
  • - Depressão nervosa oriunda da morte de um ente querido
  • - Falta de motivação em um adolescente preguiçoso para os trabalhos escolares
  • - Falta de pudor em um homem ou mulher que não hesita em expor os elementos íntimos da sua vida
  • - Atitudes não aceitas pela sociedade.
  • O tratamento dos pontos encontrados deve ser feito por agulhas semi-permanentes ou por estimulação infra-vermelhas, com a frequência G.

    Conclusão:

    A compreensão dos mecanismos neuro-fisiológicos nos permite melhor compreender os comportamentos de nossos pacientes e também dos membros de nossa sociedade. Uma grande parte dos nossas células nervosas se ocupam em administrar as relações inter-individuais. O córtex pré-frontal cria uma atitude que nós chamamos de pudor e que consiste em dissimular nossos sentimentos para permitir uma vida social aceitável.


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